terça-feira, 15 de junho de 2010

Estou sozinha em casa. É engraçado que ao fim de cinco anos ainda não me habituei a estar aqui assim. A minha casa é silenciosa, não gosto. E hoje sinto um vazio aqui. Falta-me sempre qualquer coisa.

Mas é a minha casa.


A casa que me viu crescer, a casa que te viu amar-me, educar-me, tirar os nós e pentear-me o cabelo, limpar-me as lágrimas quando eu caía de bicicleta.


Uma casa de piso térreo, branca como a roupa da nossa terra.

A nossa casa tem sempre o mesmo cheiro, o teu cheiro. O cheiro das filhozes feitas na manhã de Natal. O cheiro da tua cama, quando eu secretamente, me deitava ao teu lado. O cheiro do teu perfume, dos teus cabelos.


A nossa casa está repleta de sons. As minhas gargalhadas quando o pai me atirava ao ar, os meus guinchos quando me chateava com a Vanda, o teu habitual "ANA INÊS!!!", o chilrear do nosso cenoura, os latidos do pipon, e tantos outros sons e lembranças, que eu juro-te que fecho os olhos e ainda consigo ouvir.


Um dia, vou ter de deixar esta casa para trás. E sabes o que tenho medo? De envelhever, envelhecer e não me conseguir lembrar tão bem destas lembranças, destes cheiros. Mas enquanto esse dia não chega vou avivando a minha memória, vou falando de ti, como só eu sei. A tua Inês, que escreve quando lhe falta a força. Só assim nunca vou deixar que partas da minha memória.

E um dia, os teus netos vão saber de cor todas estas lembranças, vão descobrir tudo o que de bom me ensinaste e esta vai ser sempre a casa da avó.

Não importa para onde eu vá, pois estás sempre comigo, em mim, minha mãe.

(E quando a tristeza nos consome, há algo melhor do que escrever?)