quarta-feira, 12 de maio de 2010

Comovermo-nos com o melhor de nós

"É muito difícil escrever sobre emoções, sobre o nó que sentimos na garganta, sobre as lágrimas que nos saltam aos olhos, sobre aquela mistura de alegria e tristeza em que somos assaltados por memórias, as mais antigas e as mais recentes num turbilhão de sentimentos que nos tiram o fôlego e nos fazem irromper em soluços. Comovermo-nos pelo melhor que há nos outros à nossa volta e pelo melhor que há em nós, vencidas as barreiras que vamos erguendo para sermos mais produtivos, mais funcionais, mais eficazes, mas que acabam por nos impedir de sentir.

No Terreiro do Paço, ontem, frente ao Papa, frente ao Tejo, uma multidão de portugueses desligou o piloto automático, esqueceu os problemas imediatos e deixou-se emocionar. Deixou-se envolver nos cânticos, na alegria, no azul do céu, nos bebés ao colo das mães, nos sorrisos que se trocavam, nos gestos, no toque, na emoção que se encontra quando outros olhos inesperadamente fitam os nossos, no boné que se tira em cumprimento ou respeito, no gesto de reconhecimento que se faz, no abraço que se dá à pessoa do lado, sem que importem idades, etnias ou mesmo religião. Unidos desta vez não no grupo de amigos, nem sequer na nossa família, nem mesmo no facto de sermos portugueses, mas acima de tudo porque tomamos consciência de que somos todos e acima de tudo pessoas. E que pertencemos a um tempo e a um lugar.

As boas experiências fazem-nos querer ser melhores. Fazem-nos esquecer rancores, ódios e críticas, e desligar, nem que seja por momentos, a ânsia de encontrar razões para desconfiar, de encontrar contradições que fundamentem o nosso cepticismo. As experiências de comunhão, por muito conotada que possa estar a palavra, incendeiam em nós o desejar mudar, e mais do que isso a acreditar que vamos ser capazes.

Porque ontem fomos capazes. Ontem concretizamos um projecto, fomos capazes de nos organizar para que tudo corresse sem sobressaltos, aliámos a estética ao ritual, fomos pontuais, estivemos uns com os outros sem lamúrias, juntámos as vozes numa só voz, em redor de um homem de 83 anos, de sorriso divertido, e sapatinhos encarnados. Ainda bem."


E não há mais nada a dizer. Fez-me muito bem.